Tarifaço sobre o café brasileiro começou: como reagir? Leia a coluna do tabelião André de Paiva
- Por: André de Paiva Toledo
- 12/08/2025 20:12
A posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos representou a retomada de uma política agressiva de protecionismo comercial, voltando-se contra as regras de livre comércio que historicamente impulsionaram a economia norte-americana. Em 06 de agosto de 2025, iniciou-se oficialmente o tarifaço, com a imposição de novas tarifas a diversos produtos importados, entre eles o café. A nova tarifa de 50% para o café brasileiro coloca o nosso país em clara desvantagem competitiva, quando comparado com outros produtores. O México, um importante concorrente, continuará vendendo sem tarifas, outros enfrentarão taxas entre 10% e 27%.
Os Estados Unidos são um dos principais importadores do café brasileiro. Ano passado, 23% das exportações do produto foram destinadas ao mercado norte-americano. Essa dependência torna os desdobramentos da nova tarifa ainda mais importantes, especialmente para regiões produtoras como Campos Altos, onde o café é o principal produto de exportação.
Como enfrentar a situação? Há algumas estratégias a serem avaliadas.
Primeiramente, é importante destacar que o café é um produto agrícola com notável resistência ao tempo e às variações climáticas, podendo ser armazenado por longos períodos sem que sua qualidade seja comprometida. Essa característica confere uma vantagem estratégica aos produtores brasileiros, que podem optar por estocar a produção em momentos de instabilidade internacional, como o atual. Tal prática permite adiar a comercialização do produto até que o cenário externo se torne mais favorável, seja com a redução de tarifas, seja com o surgimento de novos mercados interessados.
Esse intervalo obtido por meio do armazenamento não apenas garante maior segurança ao produtor rural, como também oferece margem para a atuação diplomática e a continuidade das negociações bilaterais com os Estados Unidos. Enquanto o Brasil busca uma revisão da política tarifária, os impactos do tarifaço sobre o mercado interno norte-americano vão se tornar perceptíveis. A alta nos preços do café, resultante da tarifa de 50%, tende a pressionar o consumidor comum e, por consequência, afetar o índice de inflação do país. Esse cenário adverso pode levar o governo Trump a reconsiderar sua decisão, especialmente diante da pressão crescente da população das classes média e baixa.
Nos Estados Unidos, empresas importadoras de café brasileiro já iniciaram articulações internas com o objetivo de mitigar os efeitos da nova política comercial. Tais empresas, cientes da importância do café brasileiro em sua cadeia de fornecimento, têm buscado sensibilizar parlamentares e representantes do governo quanto aos prejuízos econômicos que a tarifa pode acarretar. Ao demonstrar que a medida não apenas encarece o produto, mas também compromete empregos e contratos firmados, esses agentes econômicos podem desempenhar papel fundamental na reversão da tarifa.
Paralelamente a esse movimento de contenção, abre-se ao Brasil uma oportunidade concreta de diversificação de mercados. Por exemplo, em dia 30 de julho de 2025, a China anunciou a autorização para que 183 novas empresas brasileiras exportem café diretamente para o país, com validade de cinco anos. Embora a China atualmente seja apenas o 10º importador do nosso café — adquirindo seis vezes menos que o dos Estados Unidos —, o crescimento do consumo da bebida no mercado asiático representa uma perspectiva promissora. Com a diversificação de mercados, o Brasil pode, no médio prazo, não apenas compensar as perdas com o mercado norte-americano, mas também ser menos dependente.
